Teresa Martins Marques, escritora, romancista, ensaísta, dramaturga, presidente do PEN Clube Português, foi membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores e sua Secretária-Geral, investigadora integrada no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL). No seu vasto curriculum académico e institucional, entre estudos sobre José Rodrigues Migueis e David Mourão Ferreira, avultam a sua abordagem da violência, na qual se destaca o artigo «Enfance et Violence chez José Rodrigues Miguéis et Jennifer Clement» (Presidente do International PEN) in PEN 50th International Writers Meeting, Bled, April, 2018, e o romance: A Mulher que Venceu Don Juan, 2013. Sobre este romance foram realizadas duas dissertações: de licenciatura, na Universidade de Bucareste por Gabriel Alexandru Streinu (2014) ; de mestrado, por Ana Carolina Mendes Camilo: «Representações Femininas em A Mulher Que Venceu Don Juan». Orientação da Profª. Doutora Maira Angélica Pandolfi, UNESP, Brasil, Janeiro de 2019. Em curso: traduções deste romance na Roménia e na Hungria.

O sucesso do romance, para o qual foi criado um blog que regista opiniões, estudos e recensões http://amulherquevenceudonjuan.blogspot.com/, deve-se ao talento da autora para captar, em traços precisos a acutilantes, a vida de uma mulher, aprisionada por um insinuante, mas implacável sedutor, narcisista, psicopata que a transforma em coisa, bibelot, do qual se torna dono e senhor absoluto, despojando-a, por completo, da sua individualidade, do seu ser, dos seus valores e bens, e até do seu corpo. Tudo lhe pertence. Ela a nada tem direito se não a submeter-se, pois só ele dita as regras. No mundo tenebroso que ele cria, não há espaço para a vida, para a liberdade, para o amor, apenas para a opressão, o saque, o aniquilamento da dignidade humana. Infelizmente, perfis com mais ou menos as características descritas, abundam, perfilando a insidiosa e pérfida violência doméstica. Seleccionei, para ilustrar, dois excertos do primeiro capítulo:

Para a casa nova da Foz não fui ouvida nem achada. A minha existência era a mesma de um bibelot. Servia para enfeitar a vida dele, sem voz activa, fosse para o que fosse, a não ser para as assinaturas. Um dia, o meu marido chegou a casa e ao jantar disparou:

     −Amanhã, esteja pronta às onze horas, é preciso ir ao notário assinar a escritura do apartamento novo.

Tinha falado vagamente num edifício, na Avenida Marechal Gomes da Costa, que ficara embargado por um tempo, mas que finalmente tinha sido construído. Comprou-o com o dinheiro herdado da minha família, e nem sequer me pediu para o acompanhar na visita ao andar modelo. Apresentou o caso consumado. Não posso contar isto a ninguém. Se contasse, ninguém acreditaria. Ou então seria julgada ainda mais insensata do que na realidade fui. Por isso escrevo este Diário, que não me questiona nem censura. Já bem me basta a censura que a mim mesma faço, porque hoje sei que a culpa também foi minha, muito minha, por ter sido fraca. A paixão cegou-me.

Como havia eu de imaginar, nos meus dezassete anos adolescentes, que o Adónis, aparecido, como num filme de efeitos especiais, naquele Verão, na Praia da Granja, se transformaria num demónio? E, todavia, estava na cara. Homem demasiado educado, demasiado cerebral, demasiado contido, com demasiados salamaleques, não é de confiança. As pessoas normais não são demasiado coisa nenhuma. Perfeição a mais nem Ulisses a quis e deixou Calypso a chorar-lhe a partida em Ogígia. Penélope era paciente, serviria melhor os seus intentos. Outras teias, outras malhas em que também ela se enredou, mas a minha odisseia é de outra natureza, sem deuses nem heróis que me valham.

A mamã adorava o doutor-do-beija-mão. Sarinha, homem fino, educado como este, não conheço outro. Uma linda carreira de cirurgião plástico pela frente. Tu precisas de alguém que tome conta de ti, quando te faltarmos. Não foi preciso repeti-lo muitas vezes. O Amaro, nesse tempo, era o charme em pessoa e os olhos gulosos das minhas amigas confirmavam a versão da mamã.

(...)

Tinha de arranjar coragem para lhe contar que estava grávida. Pareceu-me que longe de casa seria mais fácil evitar uma cena operática. Foi tudo ao contrário.

Depois de sairmos do São Carlos, o Amaro informou que tínhamos mesa reservada no Olivier da Rua do Alecrim. Lembro os coxins azuis e rosa, atados atrás com rendas e fitas de seda, recriando um ambiente parisiense do século XVIII. Lembro as gaiolas douradas com vela dentro, cobertas de flores, que me pareceram a melhor imagem da minha vida. Lembro dois sóis negros na parede do fundo, o Amaro cruel e o Alberto desistente, no meio deles um terceiro foco luminoso, o meu filho.

Ele tinha escolhido um misto de cinco entradas amuse bouche. Eu bebia água, ele um Quinta do Mouro, Cabernet Sauvignon. Quando pediu um sorbet com vodka, arrisquei:

− Amaro, tenho de lhe dizer uma coisa.

Mal levantou a cabeça, e a colher continuou o seu caminho para a boca.

     – Estou grávida.

A colher caiu de chofre na taça. Fez um olhar como o do Rigoletto, quando pronunciou a palavra “Maledizione!” Ficou por uns segundos calado e depois, sem o mais leve sinal de emoção:

     – Vamos tratar disso amanhã.

     – Tratar do quê?

     – Da IVG.

     – Mas eu não quero abortar. Eu quero ter o meu filho!

     – Você faz o que eu lhe mandar fazer.

     – Já é tarde para abortar.

     – Quem decide isso sou eu. Conhece as regras do jogo há muito tempo.

Mas Sarinha reage. É preciso desvendar o título do romance. A leitura até ao fim é compulsiva.

Maria do Sameiro Barroso